O fio da fábula - Jorge Luis Borges

Baco e Ariadne da National Gallery, por Ticiano (1524)


“O fio que a mão de Ariadne deixou na mão de Teseu (na outra estava a espada) para que este se aventurasse no labirinto e descobrisse o centro, o homem com cabeça de touro ou, como pretende Dante, o touro com cabeça de homem, e o matasse e pudesse, já executada a proeza, decifrar as redes de pedra e voltar para ela, para o seu amor.

As coisas aconteceram assim. Teseu não podia saber que do outro lado do labirinto estava o outro labirinto, o do tempo, e que num lugar já fixado estava Medeia.

O fio perdeu-se, o labirinto perdeu-se também. Agora nem sequer sabemos se nos rodeia um labirinto, um secreto cosmos ou um caos ocasional. O nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num ato de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade.”



O julgamento da Ovelha


Monteiro Lobato

Um cachorro de maus bofes acusou um pobre ovelhinha de lhe haver furtado um osso.
- Para que furtaria eu esse osso – alegou ela – se sou herbívora e um osso para mim vale tanto quanto um pedaço de pau?
- Não quero saber de nada. Você furtou o osso e eu vou já levá-la aos tribunais.
E assim fez.
Queixou-se ao gavião-de-penacho e pediu-lhe justiça. O gavião reuniu o tribunal para julgar a causa, sorteando para isso doze urubus de papo vazio.
Comparece a ovelha. Fala. Defende-se de forma cabal, com razões muito irmãs das do cordeirinho que o lobo em tempos comeu.
Mas o júri, composto de carnívoros gulosos, não quis saber de nada e deu a sentença:
- Ou entrega o osso já e já, ou condenamos você à morte!
A ré tremeu: não havia escapatória!... Osso não tinha e não podia, portanto, restituir; mas tinha vida e ia entregá-la em pagamento do que não furtara.
Assim aconteceu. O cachorro sangrou-a, espostejou-a, reservou para si um quarto e dividiu o restante com os juízes famintos, a títulos de custas...

Fiar-se na justiça dos poderosos, que tolice!... A justiça deles não vacila em tomar do branco e solenemente decretar que é preto.

(LOBATO, Monteiro. Fábulas. 21 edição. São Paulo: Editora Brasilense, 1969, p.36.)

O CAU e a ética na arquitetura

Essa eu não entendi. A Resolução n° 17/2012 do novo Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU, diz:

"Art. 8° A falta do Registro de Responsabilidade Técnica (RRT) sujeitará o profissional ou a pessoa jurídica, sem prejuízo da responsabilização pessoal pela violação ética"(...)

O que me assustou foi essa parte da "violação ética". Deixar de fazer o RRT virou violação ética? Isso é de importância tão central para a caracterização da conduta profissional?

A ética deve ser compreendida como um conjunto de normas de dever ser. Ou seja, um guia, uma orientação que conduza o profissional a boa prática da arquitetura, fazendo com que ela seja um instrumento que produza o bem para a sociedade. Nunca uma forma de coação para atender ao desejo de arrecadação de um órgão de fiscalização.

Outro ponto que me chamou a atenção é a multa de até 300% do valor da RRT não paga e corrigida pela taxa SELIC até o dia do pagamento. Além de pesar a mão na multa, ainda salga nos juros de mora.

Um detalhe: não há Auto de Infração pelo não registro da RRT. A Resolução não fala em prazo para regularização da situação ou ao contraditório e a ampla defesa. Vai direto à penalização. Será que isso tem algo a ver com o fato de que o CAU não possui estrutura de fiscalização?
         
Texto completo da Resolução n° 17 de 2 de março de 2012.

Estranho e pertubador


Ren & Stimpy é sem dúvida a animação mais estranha e, por muitas vezes, perturbadora da televisão. A série é exibida no Brasil pelo canal a cabo Nickelodeon nas madrugadas dos finais de semana. Os dois protagonistas são Ren, um cão chihuaua sem pelos, e seu amigo Stimpy, um gato vermelho de nariz azul, criação do cartunista canadense John Kricfalusi.

Segundo o dicionário Aurélio, estranho, como adjetivo, é aquilo que é fora do comum; desusado, novo; anormal, ou ainda, misterioso; desconhecido ou enigmático. E é assim mesmo que esta animação parece ser.

A primeira característica que chama atenção é o traço de estilização visual, que lembra as animações dos anos 1950 e 1960. Esta opção de estilo não assume o aspecto de simples citação ao passado ou paródia. Vai além. É a adoção mesmo de um estilo de desenho que não está mais em voga. Por este aspecto, ao assistirmos a animação, temos a impressão de estarmos vendo algo que vem do passado. Algo que é novo mas não pertence ao nosso tempo, assim como ver um fantasma. É esse conflito temporal que causa um primeiro estranhamento.

O segundo aspecto, e aí entra o componente perturbador, são as estruturas das histórias e o compotramento de seus personagens. Em algumas episódios, os personagens (ou Ren, de modo mais frequente) se envolvem em situações de isolamento e de perda de contato com o mundo exterior.

Não tenho aqui nomes de episódios ou temporada para citar, mas me recordo que em um dado episódio, os dois protagonistas pegam uma carona em um automóvel. Daí em diante tornam-se reféns de seu proprietário, um sujeito com ares de gangster. O automóvel em questão, semelhante a uma limosine, era conduzida por um motorista e seu dono ia no compartimento posterior, onde os dois bancos de passageiros eram virados um de frente para o outro. Do momento que entram no automóvel em diante, não será mais possível desembarcar, assim como não lhes é dada nenhuma explicação do porquê. Seu anfitrião pouco lhes diz e o veículo não para, a não ser para recolher outro desafortunado caronista. A situação não leva a lugar nenhum e como todas as demais histórias, não há desfecho conclusivo ou outro elemento que de um sentido à história.

Em outro episódio, Ren e Stimpy ficam presos em uma cabana coberta de neve. Daí em diante passam a sofrer alucinações e delírios causados pela fome. O estranho é que, pelo que a história dá a entender, os dois são os únicos que creem que estejam mesmo numa cabana coberta de neve, realidade essa não compartilhada por outros personagens que surgem no desenrolar do episódio. No desfecho,  o monte de neve que cobre a cabana é mostrado em meio uma paisagem de ensolarada, inclusive com uma piscina onde alguns personagens se banham. Seria esse isolamento puramente psíquico e não real?

O isolamento, a perda de contato com a realidade, a percepção alterada do tempo, alucinações, insonia, pensamentos paranóicos e obsessivos são comuns nos episódios e, como já dito, mais frequente ao personagem Ren que aparenta ter uma personalidade psicótica. Por sua vez, Stimpy tem um comportamento marcado pela ingenuidade e por ser pouco inteligente, embora raramente demonstre inteligência ou tente reconectar Ren à realidade. Por outro lado, Stimpy frequentemente é alvo de tentativas de assassinato por parte de Ren, durante surtos e alucinações que este sofre.

Para finalizar esta breve lista de estranhamentos e bizarrices, outro tema recorrente é a escatologia, com situações que envolvem secreções corporais, sebos e catarros. Embora a escatologia seja frequente em animações voltadas para publico infantil, em Ren & Stimpy o tema assume um tom bem nojento e perturbador.

Sem dúvida, esse não é um desenho para ser assistido pelas crianças.

Conselho de Arquitetos x Direito


Começa mal o novo Conselho de Arquitetitura e Urbanismo, o CAU. Em nota em seu site na Internet, criticam o Conselho de Engenharia e Agronomia do Distrito Federal - CREA-DF, por relacionar ação deste Conselho com a Lei 11.888/2008. Segundo a nota no site, isto é indevido e o CREA-DF deve se retratar, "sob pena de denúncias no Ministério Público por apropriação indébita do texto legal de lei federal" (SIC).

Apropriação indébita é crime previsto no artigo 168 do Código Penal e só se aplica a bens móveis, portanto bens materiais (com existência física). A lei é um bem público e incorpóreo. Não tem existência material. É absurda a idéia de que o CREA-DF tem a posse de uma lei e assim, dela se apropriou. Um ato em relação a uma lei é lícito ou ilícito e fica sujeito as sanções previstas na legislação. É de se esperar que um conselho profissional conte com algum tipo de assessoria jurídica.

Desse modo, quem deve se retratar é o CAU sob pena de virar anedota entre os juristas.

Abaixo o texto completo da nota:

"Lei de Assistencia Tecnica usada inapropriadamente pelo CREA-DF
Num ato isolado, o CREA-DF, atraves do seu Presidente Francisco Machado, utilizou a Lei federal 11.888/2008 de assistencia tecnica, para divulgar acao de um tema do CONFEA e CREAs, a engenharia publica. Arquitetos do pais inteiro se manifestaram contra esse ato do CREA-DF e estao exigindo uma retratacao publica daquele regional, sob pena de denuncias no Ministerio Publico Federal de apropriacao indebita de texto legal de lei federal."
Para ver a nota no site do CAU: http://www.cau.org.br/noticias.php?cod=10

Decreto-Lei 2.848/1940 - Código Penal Brasileiro
Apropriação indébita
Art. 168 - Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a detenção:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Aumento de pena
§ 1º - A pena é aumentada de um terço, quando o agente recebeu a coisa:
I - em depósito necessário;
II - na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário, inventariante, testamenteiro ou depositário judicial;
III - em razão de ofício, emprego ou profissão

Le Corbusier e o Nazismo

Palácio Gustavo Capanema. Rio de Janeiro, Brasil
Já li muito sobre a vida e a obra do arquiteto suiço Le Corbusier, mas saber que ele era simpatizante de Hitler e que colaborou com o governo de Vichy foi, para mim, uma surpresa. Parece que essa parte da biografia de Corbusier foi esquecida depois da guerra e vem a público, com razão, pela ação de judeus suíços diante da escolha de sua imagem como suíço de destaque na publicidade do banco UBS (leia a matéria do site Arq!Bacana)

Infelizmente esse não é um caso isolado de um personagem que teve seu passado ou ideias abrandados depois da guerra. De um modo geral, historiadores e a mídia tratam a ascensão do Nazismo como resultado de uma inércia das nações ocidentais e até como um produto de uma época "ingênua" que se deixou enganar pela oratória de Hitler. Acredito que o caso estava mais para simpatia mesmo. Os nazistas negavam o marxismo e isto agradava ao capitalismo e as Igrejas de um modo geral.

A obra de Le Corbusier é um paradigma para a arquitetura moderna e seu legado não deve ser totalmente desprezado. Suas propostas fizeram escola no mundo e no Brasil, onde inclusive participou como consultor no projeto do edifício do Ministério da Educação e Saúde (hoje Palácio Gustavo Capanema) no Rio de Janeiro. O então Ministro, o mineiro Gustavo Capanema, desejava passar a ideia de que o país se encontrava em uma fase de progresso e modernização. A obra foi iniciada em 1936 e concluída em 1945, sendo o edíficio entregue em 1947. Desta forma, o projeto se deu sob patrocínio do governo de Getúlio Vargas, sendo concluído durante o Estado Novo.

O projeto foi cordenado por Lúcio Costa e sua equipe era formada por jovens que mais tarde formariam a chamada "Escola Carioca" da arquitetura moderna. Eram eles: Carlos Leão, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos, Jorge Machado Moreira e Oscar Niemeyer. Este último foi responsável pela solução final do partido arquitetônico do prédio. Essa solução, que concentrava os escritórios em uma torre e o auditório em um bloco separado, liberando grande áerea do terreno como jardins e espaço público, tornou-se modelo para outros edifícios em altura, sendo considerado o primeiro edifício em altura no estilo moderno no mundo. O projeto incorporou várias das propostas de Le Corbusier para a "nova arquitetura" como o brise-soleil (quebra sol) na fachada norte, o pilotis, o terraço jardim e o desenho do alto do prédio lembrando o perfil de um transatlântico. O prédio ainda conta com um paínel externo de azulejos de Portinari e pinturas de Guignard e Pancetti além de esculturas de Bruno Giorgi, Jacqques Lipchltz e Celso Antônio Silveira de Menezes.

Le Corbusier deixou outro legado no Brasil, o edifício da Embaixada da França em Brasília. Esse projeto foi iniciado pelo mestre na década de 1960 e concluído por seu assistente, devido ao falecimento de Le Corbusier. Ironicamente, a autoria do prédio foi lembrada pelo presidente Sarkozy, quando em visita ao Brasil.

Por fim, é bom ressaltar que a história da arquitetura no século XX não é a história da arquitetura moderna (ou modernismo). Houveram vozes destoantes que pregavam a arquitetura com uma visão mais cultural do que idealista. Isto, volto a frisar, em pleno século XX e em paralelo ao desenvolvimento do modernismo.

Sobre o Ministro Capanema, uma curiosidade, seu Chefe de Gabinete era o poeta, e também mineiro, Carlos Drumond de Andrade.

Câmara aprova criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo

A Câmara dos Deputados aprovou em caráter conclusivo o Projeto de Lei4.413/08 que cria o Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU. Caráter Conclusivo é o rito de tramitação pelo qual o projeto não precisa ser votado pelo Plenário, apenas pelas comissões designadas para analisá-lo.

Abaixo, a matéria públicada no site da Câmara dos Deputados em 16/11/2010.

"A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania aprovou há pouco, em caráter conclusivo, o Projeto de Lei 4413/08, do Executivo, que cria o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil e dos estados.

O relator, deputado Maurício Rands (PT-PE), votou pela constitucionalidade, juridicidade e boa técnica legislativa do projeto, das emendas da Comissão de Finanças e Tributação e das emendas ao substitutivo da Comissão de Trabalho, de Administração e de Serviço Público e considerou contrária ao Regimento Interno da Câmara dos Deputados (RICD) a emenda apresentada na CCJ.

O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) afirmou que o arquiteto pode ser urbanista, que só há uma escola específica de urbanismo em todo o País e que é preciso atentar para o fato de que isso pode criar um problema no exercício da profissão.

A reunião ocorre no plenário 1."

Reportagem - Vania Alves
Edição - Newton Araújo

A matéria abaixo foi publicada em 28/01/2009, também no site da Câmara, e explicita os principais pontos do projeto.:

"A Câmara analisa o Projeto de Lei 4413/08, do Executivo, que regulamenta o exercício da arquitetura e urbanismo e cria o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) e os respectivos conselhos estaduais. Atualmente, a regulamentação e a fiscalização dessas atividades são feitas pelo Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea).

Além de criar o conselho, a proposta do Executivo normatiza as atribuições de arquitetos e urbanistas. Pelo projeto, entre as tarefas desses profissionais, estão a direção de obras e a elaboração de orçamento, seja no campo da arquitetura propriamente dita, da arquitetura de interiores ou do planejamento urbano, entre outros.

Segundo o texto, o CAU/BR especificará as áreas de atuação privativas de arquitetos e urbanistas e as áreas compartilhadas com outras profissões regulamentadas. Caberá ainda ao CAU/BR manter um cadastro nacional das escolas e faculdades de Arquitetura e Urbanismo, com o currículo dos cursos oferecidos.

Registro no CAU
Para exercer a profissão, o arquiteto e urbanista deverá ter registro profissional no CAU de seu estado. Esse registro permitirá sua atuação em todo o País.

Os requisitos para o exercício da profissão será a capacidade civil e o diploma de graduação em Arquitetura e Urbanismo, emitido por faculdade reconhecida pelo Ministério da Educação. Também deverão registrar-se no CAU as empresas de arquitetura e urbanismo.

Autoria
O acervo técnico, segundo o texto, é propriedade do arquiteto e urbanista e é composto por todas as atividades por ele desenvolvidas. Para comprovar a autoria ou a participação em uma obra, o profissional poderá registrar seus projetos e demais trabalhos técnicos ou de criação no CAU.

Qualquer alteração em trabalho de autoria de um arquiteto só poderá ser feita com consentimento por escrito da pessoa detentora dos direitos autorais.

No que diz respeito à conduta ética, algumas das infrações citadas no projeto são o registro no CAU de projeto ou trabalho que não haja sido efetivamente desenvolvido e a reprodução do projeto de outro profissional sem autorização.

Profissionais infratores poderão ser punidos com advertência, suspensão do exercício da profissão, cancelamento do registro e multa.

Crea e Confea
Os arquitetos e urbanistas com registro nos atuais Conselhos Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea) serão automaticamente registrados nos CAUs. Os Creas enviarão aos CAUs a relação de arquitetos e urbanistas inscritos até 30 dias após a instalação do CAU.

Com a criação dos conselhos de arquitetura, a sigla Crea passa a designar Conselho Regional de Engenharia e Agronomia. Da mesma forma, Confea passará a ser a sigla para Conselho Federal de Engenharia e Agronomia.

Determinação do Supremo
Segundo os ministros do Trabalho, Carlos Lupi, e do Planejamento, Paulo Bernardo Silva, que assinam o projeto de lei, a criação do CAU/BR está de acordo com determinação do Supremo Tribunal Federal e configura-se como conselho profissional de natureza jurídica de direito público.

Tramitação
O projeto será analisado em caráter conclusivo pelas comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania."

Fonte: Agência Câmara - Câmara dos Deputados.
Disponível em http://www.camara.gov.br/.

Luiz Gê e Revista Florence

Imagem: Revista Florense

Recebi recentemente os exemplares 25 e 26 da Revista Florense, editada pela movelaria Florense. A revista, além de conteúdo interessante é também muito bem diagramada, com matérias sobre arte, cultura e arquitetura, naturalmente.
A revista número 25 traz entrevista com o quadrinista Luiz Gê, hoje professor de artes da Universidade Makenzie, em São Paulo.
Autor de um traço marcante e roteiros bem construídos e que aprendi a admirar com a extinta revista Circo, nos anos 80. É da entrevista, que retiro o trecho abaixo:
“Com o Arrigo,”  Barnabé “entrou na FAU, a Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, na mesma turma de Milton Hatoum e Takashi Fukushima. Vejamos: um músico, um quadrinista, um escritor e um pintor. Todos bem-sucedidos em seus ofícios, e repare só, nenhum exerce a arquitetura.”
Bom, pelo visto a arquitetura é sempre um bom começo, mas não necessáriamente um destino certo.

Galpão para recicláveis

Estudo preliminar para determinar a viabilidade de implantação de galpão para triagem e benficiamento de resíduos sólidos, em terreno na região norte da cidade. Nessa fase, busca-se apenas a identificação de uma solução volumétrica para o projeto.

O lote, em forma de trapézio, é uma faixa residual de outra área onde já foram implantados outros equipamentos públicos. Alinha-se longitudinalmente no eixo leste/oeste. A testada do lote volta-se para uma avenida sanitária e tem orientação sul.

O programa apresentado solicitava uma área de cerca de 600 m2 com setores de trabalho e apoio para administração; vestiários; sanitários e um refeitório.

Na solução proposta, busca-se conjugar a conveniência de estruturas de modulação uniforme com o aproveitamento da área irregular formada pela testada do lote e que forma a aresta inclinada do trapézio. Assim, uma malha de sete por sete metros foi disposta junto ao fundo e a divisa esquerda do lote. Nessa faixa propõe-se a implantação do galpão em estrutura metálica. A sua cobertura em shed voltado para o sul proporciona ventilação e iluminação natural. A proposta tira partido dessa dupla função do shed, conjugando-o com a treliça da cobertura. Essa conjugação forma triângulos alternados entre vidros e venezianas. A frente do galpão, uma estrutura de alvenaria autoportante assume a forma do trapézio e abriga os setores de apoio. Esta disposição cria visuais mais interessantes da edificação, a partir da vista de que trafega pela avenida lindeira ao lote.

Para as demais utilidades necessárias, como cômodo para lixo e outros setores que devam ser separados da edificação principal, ficou reservada a faixa próxima a divisa direita do lote. Desta forma, uma grande área livre no centro do terreno ficou reservada para expansão do projeto, permitindo que a área original seja duplicada.

Strick House by Oscar Niemeyer

Foto: Revista Arquitetura e Construção . Set/2007
Em 2007, a imprensa brasileira começou a noticiar a redescoberta e a consequente restauração da única residência de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer construída nos EE.UU. A casa é conhecida como Strick House, nome de seu primeiro proprietário, o diretor e roteirista de Hollywood, Joseph Strick.
A construção localiza-se na cidade de Santa Monica, estado da Califórnia, ao norte de Los Angeles. Seu projeto data de 1962, sendo a obra concluída em 1964. Em 2002 a casa foi adquirida por um empreendedor que desejava demoli-la e erguer outra construção em seu lugar. No entanto, as autoridade de Santa Monica, ao descobrirem a origem do projeto, não permitiram o seu desmonte. Em 2003, a casa acabou sendo vendida ao seu atual morador que a restaurou por dois anos, tentando aproxima-la de seu aspecto original.
Um fato curioso sobre a construção da casa é o motivo determinante para a escolha do arquiteto. O casal Strick acreditava ser um absurdo que o autor do projeto do edifício da ONU em Nova Iorque tivesse o visto de entrada nos EEUU negado devido ao fato de ser filiado ao Partido Comunista. A escolha se deu por motivos estéticos, mas também como afronta à repressão do Macartismo. Niemeyer nunca visitou o terreno ou a obra. O projeto foi feito com base em fotografias do local e com acompanhamento de um arquiteto americano.


O que há para ser visto no projeto
O fato que mais pesou na preservação da casa foi realmente a sua autoria. No entanto, também pesou o fato de ser a única residência de Niemeyer construída nesse país. Destacou-se ainda os aspectos representativos do movimento moderno presentes no projeto. Outra residência, encomendada por um financista americano e que deveria ser construída na cidade de Santa Barbara, acabou ficando só no papel.
Um ponto que parece ter sido determinante na solução adotada é a situação do terreno em relação ao seu entorno. Posicionado no alto de uma colina, a parte posterior do lote se volta para um vale, tendo ao fundo a vista das montanhas de Santa Monica. Neste ponto, o ideal modernista de integração entre exterior e interior pesou como determinante na solução do projeto.


Sem empregar linhas curvas, caracteristíca de seu trabalho, Niemeyer adotou um partido em forma de "T", dividindo a casa em duas alas. A ala social foi implantada em sentido transversal ao terreno. As duas fachadas, a frontal e a posterior são vedadas com cortinas de vidro que não obstruem a vista das montanhas, tanto de quem está em seu interior como de quem vê a casa pelo acesso da rua. A ala íntima e de serviço foi implantada no sentido longitudinal, alinhada com a divisa esquerda do lote. O quarto do casal está localizado no extremo do braço do "T", voltado para a vista das montanhas. Desta forma, o projeto vai ao encontro de um ideal caro aos modernistas e já citado: integrar interior e exterior. Propõe assim uma resposta ao problema formulado por Lúcio Costa, segundo o qual "construir é obstruir a paisagem".

O projeto na mídia
O projeto, ao contrario do que alguns reportam, foi divulgado pela imprensa da época. Isto por que a revista americana Arts & Architecture de setembro de 1964 publicou o projeto. Infelizmente, não consegui ainda ter acesso a publicação. Caso alguém saiba de alguma biblioteca no Brasil que possua este exemplar, ficarei grato de receber a informação.
No Brasil, as revista Carta Capital (ainda não tenho a data), Arquitetura e Construção e AU publicaram matéria relativa ao projeto.
A casa no Google Earth
Para localizar a casa no Google Earth, digite seu endereço: 1911 La Mesa Dr (o Dr é de "drive")
ou as coordenadas:
Latitude = 34° 2'38.82"N
Longitude = 118°29'58.60"O
Um modelo 3d simples, sem texturas, também está disponível. Também é possível ter a visão da rua, a partir de fotos de 360 graus do local.

Sobre o projeto na web
Algumas páginas da web já publicaram informações sobre o projeto. Assim, acho desnecessário ficar repetindo o assunto. Abaixo listo alguns locais interessantes:

Paleta de Cores


Para quem é usuário do OpenOffice, a página dos desenvolvedores da versão brasileira (BrOffice) disponibiliza uma biblioteca de documentos e apostilas sobre o uso deste software livre. Então, vou fazer propaganda de uma cartela de cores que apresenta a compilação e sistematização das cores disponíveis para uso no BrOffice 2.4. Na verdade, estou fazendo propaganda própria, pois eu mesmo elaborei esse trabalho e o enviou para divulgação no site.
O documento foi concebido com a finalidade de representar de forma sinótica todas as paletas de cor disponíveis no software livre BrOffice.org 2.4 e também com o objetivo de fornecer uma fonte para impressão de amostras de cor, uma vez que a representação da cor na tela do computador não é idêntica a representação da mesma cor na impressão.
A cartela de cores é distribuída pela licença "Creative Commons", ou seja, você pode copiar e imprimir livremente; pode gerar obras derivadas, mas deve citar a fonte original e deve distribuir de forma não comercial. Na apresentação do trabalho explico melhor está licença, além de uma breve explicação sobre a exibição de cores na tela do PC e a reprodução por impressoras, o que justifica a impressão da cartela para quem trabalha com comunicação visual. Para baixar a cartela de cores, siga os passos abaixo ou selecione o link adequado:

Acessar o site oficial do BROffice

Vá para a seção documentação

Em seguida escolha Paleta de Cores no BROffice Draw.org. O documento está disponível em duas versões:

Como versão .odg que é a versão editável

Como versão .PDF para impressão não editável.

Mensagem de Natal 2008


Quando eu era pequeno, eu acreditava que o Papai Noel existia. Quando cresci, eu descobri que meus pais é que me davam os presentes e, então, nunca mais acreditei em Papai Noel. Agora que sou adulto, descobri que o Papai Noel realmente existe e o mais surpreendente: que o Papai Noel na verdade sou eu.
Desejo que você faça um feliz Natal.
Por que nós podemos fazer a vida mais feliz.

A garota, a pomba e o anjo

Ronaldo C. S. Magalhães
Esse caso foi minha mãe que me contou. Ele é sobre uma garota que ela conheceu quando menina e que passava os dias em frente ao computador. É claro que quando minha mãe era menina não havia computadores. Mas isto não inviabiliza a história, já que se ao tempo de minha mãe houvesse computadores e se ela houvesse conhecido esta garota, ela com certeza teria me contado este caso.
Essa história até parece que foi inventada, porque ela não tem nem pé nem cabeça. É como as coisas que a gente pensa ou sonha. Só tem meio. Não se sabe onde começa e aonde vai terminar. Essa história é sobre uma garota que ao chegar perto de um computador, percebia um reflexo no vidro da tela desligada. Quando se aproximava mais, na tela via a imagem de uma garota linda e que a olhava de modo fixo. No início disfarçava. Virava o rosto de um lado para o outro. Fingia fazer outras coisas e, esperando surpreende-la, olhava de repente para a frente. Mas lá estava ela e seus olhares se encontravam de novo. Então a garota estendia o braço para ligar o computador e a outra garota, do outro lado da tela, fazia a mesma coisa e parecia ligar um outro computador de tal sorte que não se podia saber qual das duas havia erguido o braço primeiro. Ela olhava para a garota e a via sumir na nova imagem que surgia na tela colorida do monitor. A garota, se sentindo abandonada, dava um profundo suspiro e se conformava pensando que a outra garota não havia partido, mas continuava ali e só não podia ser vista por causa da imagem que então iluminava a tela.
Ao longo do dia, enquanto trabalhava, a garota olhava para suas tarefas e pensava na outra garota e a imaginava misturada às letras, aos números e as linhas da tela. Com o tempo, passou a pensar que a garota, as letras, os números e as linhas eram uma coisa só. Assim, ela permanecia com o olhar fixo na tela, fitando o outro olhar que a mirava e nem se lembrava mais de olhar a sua volta. Pobre garota. Não percebia que a outra, tão bela e de olhar tão doce não era outra, mas sua própria imagem refletida na tela. Não era nem ela mesma, mas unicamente um reflexo seu.
Minha mãe diz que a garota continua até hoje a olhar a outra garota na tela do monitor. Isto por que nas histórias o tempo não passa e todas as vezes que a gente as conta elas começam de novo. Como da vez em que eu vi a pomba com um ramo no bico. Eu estava dirigindo e quando olhei para o lado, lá estava a pomba passando em um rasante ao lado do meu carro. Asas abertas e no bico levava um ramo, em pleno vôo. Foi só um instante, mas eu vejo a pomba até hoje, congelada no vôo, carregando o ramo no bico. Você pode pensar que eu estou contando tudo isto por sua causa. E estou mesmo. Porque todo mundo é igual e quando nós falamos de nós, estamos também falando dos outros.
Eu já contei que um dia eu vi um anjo. Aposto que você nunca viu um anjo. É claro que não foi aqui. Aqui ninguém acredita mais em anjos e é por isto que eles não aparecem mais. O meu anjo, eu o vi em uma ladeira deserta em Ouro Preto. Em Ouro Preto ainda é possível se acreditar em anjos e é por isto que eles aparecem por lá. Era três horas da manhã e lá estava ele, de cetim branco, asas emplumadas, caminhando lentamente pela rua, passo a passo a caminho de casa de mãos dadas com a mãe, voltando da procissão. Eu nunca vi um disco voador, mas um anjo eu já vi e quando você vê um anjo em Ouro Preto, nem adianta pensar ao contrário, aquilo é um anjo sim, porque o importante não é o que a gente vê, mas o significado que damos ao que vivemos .
Você pode até achar que eu não estou dizendo coisa com coisa ou até que eu estou mentindo. Mas não estou não. Nada disto eu inventei. Pode acreditar em mim.
(Texto premiado no concurso "Causos que minha mãe contou". Belo Horizonte - 2007)

Reflexões sobre o tempo

Existem duas formas consagradas de se conceber o tempo: uma é linear e predominantemente ocidental enquanto a outra é circular. A forma linear é a mais fácil de ser entendida por nós, pois traz em si uma noção de história. Nela, os momentos se sucedem de forma hierárquica. Passado, presente e futuro. Um sucedendo ao outro e sem possibilidade de retorno. O futuro é o que esta por vir. Se torna presente (o que é) e em seguida passado (o que já foi). É o calendário e a “linha do tempo” com os fatos se sucedendo.
A segunda forma é a circular e a mais difícil de ser aceita em nossa cultura. Nela não há hierarquia. O passado é o futuro do presente. O tempo está em eterna repetição. Este raciocínio a respeito do tempo é encontrado na cultura africana iorubá, origem da Umbanda e do Candomblé. A vida segue a repetição encontrada na natureza, como a sucessão das estações e dos dias. Nas artes adivinhatórias dos oráculos usados para entender o presente e prever o futuro, como no jogo de búzios, o vidente (Babalorixá e Ialorixás) não adivinha propriamente o futuro do consulente, mas identifica qual a sua história pessoal, correspondente a uma história pré-existente já predefinida pela tradição e que, segundo a qual, teve sua origem em entes ancestrais.
Pois eu vou lançar aqui uma terceira concepção de tempo. Eu a nomeei de tempo horizontal. Imagine uma linha do tempo na vertical (hierarquizada). O passado está em baixo, o presente no meio e o futuro em cima. Agora vire a linha na horizontal. Pronto, acabou a hierarquia. Nesta posição, passado, presente e futuro se processam ao mesmo tempo. Ou melhor, não há tempo, apenas instâncias diferentes. Você acha isto absurdo. Então pense como é que você sente a sua existência. Pense não. Se pensar vai optar pelo tempo linear. Sinta. Seus sentimentos são moldados pelas experiências do seu passado, mas se traduzem em desejos que são projeções para o futuro, vivenciados no presente. Em um único instante, passado e futuro se encontram no presente. Todos formam uma unicidade temporal em seu ser. Quando contamos uma história, vamos, através da linguagem, colocando uma ordem nos fatos. Esta ordem não é natural em nossa mente. Quem narra um fato, muitas vezes vai e volta no tempo para acrescentar coisas que esqueceu e que não cabiam na narrativa. Quando vivenciamos algo, o tempo não está presente. Muitas vezes não sabemos a ordem em que algo se sucedeu. Se já sabíamos antes. Se já era um desejo nosso ou se ficamos assim pelo que aconteceu. Uma narrativa é apenas uma escolha dentre as várias possíveis. Uma não excluí a outra.
O tempo é atado ao espaço. Sem o movimento, o caminhar pelo espaço, não há como medir ou sentir o tempo. Tempo e espaço formam a essência do nosso universo. Assim, vou lembrar Moisés no livro do Êxodo. Quando este é comissionado por Deus para libertar seu povo do cativeiro no Egito, Moisés pergunta a qual nome deve mencionar quando lhe perguntarem qual deus o enviou e Ele lhe responde que deve nomea-Lo por "Eu Sou". Interessante notar que o tempo do verbo, aqui usado no lugar de um nome próprio, determina um caráter permanente ao seu ser. Não foi nem será. Simplesmente é.
Ao ser é impossível conceber o não ser, por que o não ser traz em si a negação do ser. O espaço e o tempo pertencem ao nosso universo material. Nós que temos nossa existência marcada pelo tempo e pelo espaço temos dificuldade em conceber uma existência sem ambos. Ao espírito, aqui entendido como nossa essência e não no sentido religioso comum ou esotérico, não há a necessidade tanto do espaço quanto do tempo.

Saudação incial.

Bem vindo ao meu blog. Durante algum tempo hesitei nesta publicação. Acabei cedendo, pois o blog pode se tornar uma semente para outros projetos. Assim, prometo ser seletivo em relação ao que vou postar e vou tentar não ficar escrevendo mensagens intermináveis sobre o que eu penso das coisas. Desejo, modestamente, que este blog seja um espaço para coisas agradáveis. Como mensagem inicial, escolhi um poema meu, que não é inédito e já tem um bom tempo, mas espero que ele dê o tom para o resto do trabalho.

Um abraço a todos e felicidades.


De onde vêm os sonhos


Ronaldo C. S. Magalhães

Uma noite veio um anjo e, como se fosse em sonho,
conduziu-me ao lugar onde vivem todas as coisas
que nunca foram sonhadas, pensadas ou imaginadas.
É também, disse-me ele, o lugar para aonde vai tudo aquilo
que um dia já soubemos e depois esquecemos.
Pois, saber e esquecer é como nunca ter sabido.

Lá há um imenso baú onde Deus tranca tudo.
Mas, falou-me o anjo, como Deus é bom, todas as noites
quando dormimos, ele abre seu imenso baú
e nos deixa mexer nas coisas que há dentro dele.

Desde aquela noite, minha memória passou a ser como um mar onde,
vez ou outra, vai dar a praia restos náufragos do que nela se perdeu.